domingo, 24 de novembro de 2013

A Melodia de Pássaros sem Canção


Sem sobra de dúvida, o quixadaense Jards Nobre é um escritor maduro, que não usa bijuterias para enfeitar o texto,  embora seja com apurada precisão que lapide as palavras. Gostei de tudo no seu novo livro que já li mais de duas vezes.

Pássaros sem Canção (Corsário – 2013), desde seu título belo e triste - a beleza, às vezes, é triste - até o desfecho do enredo que culmina no fantástico se faz um livro surpreendente (creio que toda ficção que se prese tenha que vir a ter um final surpreendente). Gostei do sertão chuvoso pintado pelo autor, onde pulsa a vida, e as paixões se procuram aquecer, e, nesse aspecto, o livro lembrou-me um pouco o sertão de "Aves de Arribação", do cearense Antônio Sales.

Admirável e habilidosa é a maneira realística como é narrada no livro à saga do mundo mesquinho e hipócrita devorando os sonhos e os amores dos personagens principais. Por isso, Pássaros sem Canção inquieta, toca o leitor e o faz (re)pensar posicionamentos consagrados pela cultura, pela mídia, pela moral e pela sociedade, bem ao modo como fazia o carioca Nelson Rodrigues em suas crônicas, contos e peças, ou ainda como o fez o nosso cearense Adolfo Caminha em seus romances A Normalista e o Bom-Crioulo, mas sem, no entanto –  chamo atenção - ficar Jards limitado ou preso a essas referências na construção da trama. Por tudo isso, Pássaros sem Canção é um livro raro, muito bem escrito e que não cabe em gaiola nenhuma, pois seu destino é voar longe, livre através do tempo, e quem saberá professar regido por qual melodia?

por Bruno Paulino

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